A Ressonância Magnética na Esclerose Múltipla

A Ressonância Magnética na Esclerose Múltipla

“A clínica é soberana” – quem da área da saúde já não ouviu essa frase ? De fato, uma anamnese (a história do adoecer) e um exame físico bem feitos são a base para uma investigação diagnóstica confiável. Porém, com o avanço tecnológico, os exames complementares em algumas patologias vêm assumindo papel importante, levando inclusive a reformulações em critérios diagnósticos formais. Foi o que aconteceu com a Esclerose Múltipla (EM) – doença desmielinizante (ou seja, que afeta a substância que envolve os axônios da maioria dos neurônios, prejudicando a condução do impulso nervoso).

Em 2017, o congresso internacional realizado pela ECTRIMS (European Committee for Treatment and Research in Multiple Sclerosis) lançou os novos critérios diagnósticos : McDonald 2017 (uma reformulação do pregresso McDonald 2010). Desde a versão de 2010 a análise dos achados de Ressonância Magnética (RNM) eram aliados à sintomatologia clínica do paciente, e diante de uma provável hipótese de EM o exame de RNM já mostrava-se de extrema importância (não somente para auxílio diagnóstico mas para acompanhamento posterior das lesões), sendo indicada sua solicitação a todos pacientes em investigação dessa hipótese. Isso porque apesar de teoricamente ser possível o diagnóstico sem achados de neuroimagem que respaldem a hipótese de EM (isso a depender do número de surtos e de evidência clínica objetiva do local da lesão), o fato de existir uma gama de doenças que fazem diferencial clínico com a EM e da recomendação formal de exclui-las antes do diagnóstico final, guiou a recomendação de 2017 a sempre solicitar RNM nas investigações de EM (até porque o exame pode antecipar os critérios tornando o dignóstico mais precoce).

Mas… solicitar RNM de todo Sistema Nervoso Central ? A recomendação é de crânio a todos sob suspeita, e a de coluna a critério médico, porém aconselhada quando a clínica sugere uma localização medular, quando o curso é primariamente progressivo (um subtipo de EM), quando mesmo após feita RNM crânio e analisado Liquor (bandas oligoclonais) ainda não for possível fechar o diagnóstico, ou mesmo diante de alguma característica atípica do paciente como idade avançada.

Mas o que mudou em relação aos critérios de RNM ?

  • As lesões corticais também passam a ser computadas e não mais apenas as justacorticais;
  • As lesões sintomáticas (aquelas localizadas em regiões geradoras de sintomas) também passaram a ser computadas, e não apenas as assintomáticas.

Ressalvadas as 2 pontuações acima, as definições em relação à disseminação no tempo e no espaço do ponto de vista radiológico se mantiveram, logo, ainda é importante tanto o neurologista quanto o radiologista se atentarem em observar a ocorrência ou não de realce lesional pelo contraste (gadolíneo) – o realce seria mais um preditor de lesão recente, ou seja, doença em atividade.

Já é possível perceber o porquê do papel de destaque da RNM nos critérios diagnósticos da EM, inclusive nas últimas modificações : aumentar a sensibilidade permitindo o diagnóstico e tratamento precoces, visando preservar o bem estar do paciente. É a tecnologia a serviço da medicina baseada em evidências.

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