Escolaridade e demência

Escolaridade e demência

Qual impacto a Educação pode ter na evolução de quadros demenciais ? Alguns estudos têm mostrado que a escolaridade desempenha papel significativo no minimizar e/ou retardar de alguns sintomas desses quadros. Não existe uma definição única para “demência”, mas a que eu considero mais completa consiste na publicada em 2013 pelo DSM-V (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – 5ª edição) – que inclusive sugere o termo “transtorno neurocognitivo maior” ao invés de “demência”. Nele, preconiza-se que a partir de uma consulta médica sejam procuradas evidências clínicas anteriormente inexistentes no cotidiano do paciente de comprometimento em pelo menos um dos 6 domínios cognitivos (aprendizagem e memória / linguagem / função executiva / atenção complexa / função perceptivo-motora / cognição social), que interfiram na sua independência diária, excluído delirium e outros diferenciais. Notem que a memória deixou de ser requisito essencial passando a representar o mesmo peso dos demais domínios.

Em 2017 foi publicado na revista The Lancet o resultado de uma extensa revisão sistemática e metanálise sobre o tema que apontou um aumento 1,6 vezes maior no risco relativo de demência em pessoas com nenhuma ou com apenas a educação primária (*mais detalhes dessa publicação no link ao final do post). Como se mesmo diante de uma genética para desenvolvimento demencial diante de um paciente com maior escolaridade houvesse maior chance de os sintomas serem menos evidentes ou mais tardios.

Mas … quais as explicações para esse achado ? Acredita-se que a baixa escolaridade associa-se a falta de reserva cognitiva. Como assim ? Quanto mais exercitados os neurônios são através de estímulos intelectuais (não apenas os fornecidos pelas escolas, mas leituras, jogos recreativos, interação social etc) teoricamente maior seria a plasticidade neuronal (capacidade de reorganização sináptica, aumentando a facilidade de conexões entre os neurônios). Como se a escola / livros fossem a academia de musculação e os músculos nossa mente : quanto mais exercitada (principalmente na juventude, quando as conexões estão mais em expansão) mais “reserva” teremos quando chegarmos à velhice.

Mas … e se apesar de a educação ter sido comprometida na infância ela começasse a ser rotina só na fase adulta, haveria impacto semelhante nessa reserva cognitiva e consequentemente nas chances de uma evolução melhor em quadros demenciais ? A resposta a esse questionamento está sendo trabalhada pela neurologista brasileira Elisa Resende (da UFMG) que esse ano recebeu suporte financeiro do Global Brain Health Institute (GBHI) e da Alzheimer Association para investigar se a Educação de Jovens e Adultos (EJA) também pode minimizar a sintomatologia demencial em pacientes que não tiveram a oportunidade na infância; os resultados da pesquisa vêm sendo positivos mas ainda não se finalizaram. Vamos aguardar os resultados finais torcendo para que sim !

* Dementia prevention, intervention, and care. Revista The Lancet, 2017 : https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(17)31363-6/fulltext

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