Anticoncepcionais Hormonais Combinados Orais e a Trombose Venosa Cerebral

Anticoncepcionais Hormonais Combinados Orais e a Trombose Venosa Cerebral

Apesar de pouco conhecida entre a população geral, a TVC (Trombose Venosa Cerebral) é bem famosa entre nós neurologistas. Trata-se de uma causa grave de cefaleia (dor de cabeça) que se não tratada a tempo corre o risco de complicações e sequelas neurológicas variáveis. Felizmente, é uma condição rara (0,2 a 1,57 casos a cada 100000 pessoas por ano) e alguns dos seus fatores de risco são preveníveis. Um deles, polêmico aliás, trata-se dos anticoncepcionais hormonais combinados orais (ACO). Apesar de a maioria dos estudos evidenciarem que os ACOs realmente aumentam o risco de trombose – como o “Diagnosis and Management of Cerebral Venous Thrombosis” publicado em 2011 na revista Stroke com base em recomendações da ASA (American Stroke Association) – a polêmica maior centra-se no pesar riscos e benefícios do uso de ACOs em cada caso particular (ou seja, a depender do contexto de cada paciente).

Não podemos ser injustos com os ACOs – desde que surgiram no mercado na década de 60 permitiram diversos benefícios – maior autonomia feminina em planejamento de carreira ao adiar a maternidade, tratamento de várias condições, como : hiperandrogenismo, dismenorreia, sangramento uterino anormal. Além disso, a gestação e o puerpério são reconhecidamente fatores de risco mais impactantes quando falamos em tromboembolismo venoso se comparado com o uso de ACO (ainda que doses de etinilestradiol mais elevadas como 50 μg conforme a publicação de 2018 “Combined hormonal contraception and the risk of venous thromboembolism: a guideline” na Revista Fertility and Sterility da American Society for Reproductive Medicine). Ou seja, teoricamente ao usar ACO a mulher está deixando de se expor a condições de maior risco de tromboembolismo venoso (gestação e puerpério) para uma condição que apesar de ainda estatisticamente associada a essa complicação, menos.

Mas … de quanto em aumento de risco de trombose ao usar ACO estamos falando ?

Depende. Do estudo, da idade da paciente (idade > 35 anos tem mostrado maior influência em aumento de riscos), do tipo de hormônio e sua dosagem na pílula e finalmente (mas não menos importante) dos fatores de risco prévios de cada paciente (como obesidade, tabagismo, trombofilias – conjunto de doenças que predispõem a formação de coágulos sanguíneos). Em geral os ACOs aumentam em 2 a 3 vezes os riscos tromboembólicos venosos (metanálise ao final do artigo)*. Dentro da classe de medicamento “ACO” ainda existem as condições menos associadas a esse risco : doses de etinilestradiol menores que 50 μg (a maioria atualmente) e progestágenos de 2ª geração (como levonorgestrel).

A Bayer, uma grande produtora de ACOs, chegou a declarar que a empresa segue a decisão da Comissão Europeia, que definiu que os benefícios das pílulas combinadas na prevenção da gravidez não planejada e tratamento de outras condições continuam a superar os riscos do uso da medicação, até porque a possibilidade de tromboembolismo venoso associada ao seu uso é pequena principalmente se comparada ao mesmo risco desse desfecho em gestantes e puérperas. Portanto, vale ressaltar que a decisão final do uso ou não de ACO deve partir do diálogo e esclarecimentos entre pacientes e ginecologistas, particularizando cada caso, discutindo medidas alternativas e pesando com os objetivos e contexto da paciente – que sempre deve ser esclarecida de possíveis (ainda que raras) complicações antes de iniciar a medicação.

* https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/23969809

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